Níveis de carreira

A terminologia usada no mundo acadêmico varia de país para país, o que pode gerar uma certa confusão mesmo para quem faz parte desse mundo. Por essa razão, decidi adicionar este guia ao meu site. Focarei somente em quatro contextos acadêmicos.

ImportanteUm termo importante

Vagas permanentes fora do Brasil são comumente chamadas de tenure-track. São como “concursos públicos” no Brasil. A tenure é a sua permanência: se você diz que “tem tenure”, isso significa que tem total estabilidade, ou seja, ser demitido é virtualmente impossível (embora isso dependa do país onde você está; veja abaixo). O termo track representa o período que você percorre até conseguir a sua permanência (tenure): veja bem, isso não é a mesma coisa que um período probatório (que também existe fora do Brasil). Usaremos esse termo frequentemente ao longo do texto.


Progressão de carreira

Vamos a uma rápida comparação entre os níveis de carreira mais comuns para vagas permanentes com dedicação exclusiva e em tempo integral no Brasil (universidades federais), nos EUA, no Canadá anglófono, no Québec e no Reino Unido. Excluo da tabela professores eméritos e professores que detêm cátedras (e.g., James McGill Professor of …). É importante ressaltar que a progressão de carreira acadêmica no Brasil mudou recentemente, o que dificulta um pouco comparações entre países (veja abaixo).

# Brasil EUA/Can Québec Reino Unido
1 Assistente - - -
2 Adjunto Assistant professor Professeur adjoint Lecturer
3 Associado Associate professor Professeur agrégé Senior lecturer
4 Titular (Full) professor Professeur titulaire Reader
Tabela 1: Níveis de carreira para vagas permanentes com dedicação exclusiva

Vamos a alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, é preciso dizer que o sistema do Reino Unido tem uma variação em sua nomenclatura. Algumas universidades têm adotado a nomenclatura norte-americana; outras têm “pulado” o nível Reader e ido direto para Professor. Tradicionalmente, contudo, o título Professor no Reino Unido está acima de Reader, e não tem um equivalente óbvio no sistema norte-americano—uma opção seria equiparar Professor no Reino Unido a Distinguished professor, por exemplo. Ou seja, Professor seria um “nível 5” na tabela acima.

Em segundo lugar, o Brasil tecnicamente não possui vagas tenure-track (melhor dizendo, há tenure, mas não há track). Quando alguém passa em um concurso, essa pessoa entra na carreira como professora assistente e já tem sua permanência. Ela precisa apenas passar pelo período probatório de 3 anos para se tornar professora adjunta. Em outras palavras, um professor concursado não precisa publicar X artigos para ter sua vaga “garantida para a vida”. Isso também ocorre no Reino Unido, onde o “concurso” começa como Lecturer “permanente”.1 Portanto, no Brasil e no Reino Unido, por exemplo, o quanto você produz define sua progressão de carreira; na América do Norte, o quanto você produz também define se você ganhará ou não sua permanência (tenure) no início da sua carreira.2 Ou seja, as universidades aqui na América do Norte vão examinar a sua performance por 4-5 anos para decidir se você ficará “para sempre” naquele campus.

Em terceiro lugar, precisamos entender melhor o cargo de professor assistente em universidades federais no Brasil. Como a Tabela 1 deixa claro, não há exatamente um equivalente a esse cargo em universidades norte-americanas (ou britânicas). Na verdade, as equivalências mostradas na tabela não são perfeitas, evidentemente. Um assistant professor nos EUA ou no Canadá ainda não tem sua permanência. Já no Brasil, tanto o professor assistente quanto o professor adjunto já são permanentes. No Québec, temos um cargo chamado professeur assistant, que é reservado para quem passou no concurso mas ainda não terminou seu doutorado. Trata-se, contudo, de uma situação particular e temporária, já que a carreira começa com adjoint. Então, professeur assistant não é a mesma coisa que professor assistente no Brasil.

Tudo depende da região e da universidade. Em média, contudo, um professor é adjunto por 4–7 anos até passar ao nível de professor associado. Para passar ao nível final (full professor ou professeur titulaire), é feita uma análise geral do currículo do professor associado (associate professor ou professeur agrégé). Em algumas universidades norte-americanas, é possível ir de adjunto a titular em 10 anos, mas esse período naturalmente varia e depende de alguns fatores. Nem todo professor vira titular ao longo de sua carreira. Por fim, essas durações levam em conta uma situação típica dentro de uma mesma instituição (ou seja, sem troca de instituição). Se você trocar de universidade antes de ganhar sua permanência, a sua cronologia provavelmente pode levar mais tempo, mesmo que a sua nova universidade reconheça a sua experiência.

No Brasil, com as modificações de 2025, você precisa de 11 anos até virar associado e mais 8 anos até virar titular. Ou seja, um total de 19 anos, um período bastante longo (praticamente o dobro do tempo necessário na América do Norte, de um modo geral).

Confusões comuns

É comum ficar confuso com a terminologia acima, especialmente porque falei apenas de vagas permanentes. Contudo, também existem termos para posições não permanentes e posições acadêmicas que antecedem os níveis já mencionados.

  • Assistant professor é um professor, como vimos. Teaching assistant (TA), contudo, é um aluno que auxilia o professor—termos similares, mas conceitos e responsabilidades bem diferentes. Não é raro ver brasileiros que, após serem TAs nos EUA, voltam ao Brasil e colocam em seus currículos que foram Assistant Professors (um erro). Université Laval
  • Research assistant (RA) seria equivalente a um bolsista de iniciação científica, embora seja possível ser um assistente pós-graduando também (Graduate research assistant). No Reino Unido, também é possível ser um Research associate, que implica ter um doutorado e fazer pesquisa em um determinado departamento (ou seja, uma posição pós-doutorado).
  • Via de regra, lecturer nos EUA e no Canadá significa “professor temporário”. Lecturer no Reino Unido significa professor permanente em início de carreira.
  • Adjunct professor nos EUA significa “professor temporário”—há uma imensa crise de adjuntos nos EUA. No Brasil e no Québec, “adjunto” significa “permanente”. No Québec, em universidades francófonas, professores não permanentes são geralmente chamados de chargés de cours: trata-se de uma posição focada exclusivamente no ensino, diferentemente de posições permanentes, que presumem ensino, pesquisa e serviço. Vale lembrar que nem todo professor não permanente é equivalente: um chargé de cours no Québec tem muito mais suporte e estabilidade profissional do que um adjunct professor nos EUA ou que um lecturer em outras partes do Canadá.

É preciso esclarecer que sempre há exceções às generalizações acima. Por exemplo, nem todo Associate professor na América do Norte tem tenure. Em algumas (poucas) universidades, por exemplo, virar associado não acarreta ganhar tenure. Da mesma forma, nem todo Assistant professor está em uma tenure track, já que algumas universidades usam esse termo para vagas não permanentes também.3 O que descrevo aqui é o que normalmente acontece.

Tratamentos diferentes

Na América do Norte, professores em universidades anglófonas são chamados de professor, Dr, ou são simplesmente chamados pelo nome. Tudo dependerá do nível de formalidade da área e da universidade (dos “costumes” acadêmicos locais). Na escrita, frequentemente usamos Nome Sobrenome, PhD. No Québec, são comumente chamados de Monsieur/Madame Sobrenome. Na escrita, costumam ser referidos por Nome Sobrenome ou Professeur(e) Nome Sobrenome.

McGill University

No Reino Unido, professores com doutorado tendem a ter Dr à frente de seus nomes (em vez de PhD após seus nomes). Serão chamados de Dr Sobrenome ou por seus nomes (novamente, tudo depende do costume local). Na escrita, todo professor será Dr Nome Sobrenome. Somente quem chegou ao nível de professor é chamado de professor. Ou seja, quase nenhum professor é professor no Reino Unido (ver tabela acima).

Para resumir, um professor de nível 1, 2, ou 3 na tabela acima provavelmente será chamado na escrita de Prof. Dr. Nome Sobrenome no Brasil, de Nome Sobrenome, PhD nos EUA e nas regiões anglófonas do Canadá; de Nome Sobrenome no Québec; e de Dr Nome Sobrenome no Reino Unido. Naturalmente, há variações e diferentes títulos dependendo da universidade.


Copyright © Guilherme Duarte Garcia

Notas de rodapé

  1. O conceito de tenure não existe no Reino Unido desde 1988. Uso aspas aqui porque a permanência no Reino Unido não é como a permanência em países como Brasil, Portugal, Espanha, etc. Nesses países, professores de universidades federais são servidores públicos, e é virtualmente impossível perder o emprego nesse cenário. Já no Reino Unido, é perfeitamente possível perder um emprego “permanente”, embora seja algo extremamente raro (como nos EUA): por exemplo, se a universidade decidir fechar um departamento porque está endividada. No Canadá, é mais raro ainda (todas as universidades são públicas), especialmente no Québec, onde há uma estabilidade profissional bastante elevada e sindicatos fortes. Para fins práticos, a estabilidade profissional no Québec e no Brasil é a mesma.↩︎

  2. Há universidades em que professores associados ainda não têm tenure. Uma vez que recebam a tenure, esses professores viram full professors, ou seja, professores titulares. Esse sistema existe, por exemplo, na Universidade de Harvard.↩︎

  3. Eu fui, por um semestre, assistant professor na Concordia University, em uma vaga temporária. Lá, um lecturer com PhD completo era chamado de assistant professor em contratos de tempo limitado. Ou seja, mesmo dentro da própria região pode haver uma nomenclatura específica.↩︎